Igreja Presbiteriana Dikaios
Confissão de Fé de Westminster Capítulo IX

Do Livre-Arbítrio

Introdução

A compreensão do livre-arbítrio exige que a vontade humana seja considerada dentro dos diferentes estados em que o ser humano se encontra. A vontade não deve ser tratada como se toda a história bíblica apresentasse uma única condição humana.

O estudo apresenta quatro estados da vontade:

Estado de inocência — Adão e Eva antes da queda.
Estado de pecado — toda a humanidade em Adão depois da queda.
Estado de graça — os regenerados em Cristo nesta vida.
Estado de glória — os crentes perfeitos na presença de Deus.

Essa distinção impede que se misture a condição de Adão antes da queda com a condição do homem depois do pecado ou com a condição do crente regenerado.

O propósito é compreender a soberania de Deus, rejeitar a ideia de autonomia humana e, ao mesmo tempo, reconhecer a responsabilidade humana.

1. A soberania de Deus e a condição da vontade humana

A soberania de Deus é apresentada como realidade que governa toda a existência humana. O homem não é apresentado como autônomo, inclusive no que diz respeito à sua salvação.

O Salmo 139:16 é apresentado como texto inicial:

“Os teus olhos viram o meu embrião. Todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer um deles existir.” (Salmo 139:16)

Esse texto é utilizado para destacar que os dias do ser humano estavam determinados e escritos por Deus antes de existirem.

A soberania divina, porém, não elimina a responsabilidade humana. O estudo mantém essas duas verdades juntas: Deus é soberano e o homem continua responsável por suas ações.

2. O estado de inocência

O primeiro estado é o estado de inocência. Trata-se da condição de Adão e Eva antes da queda.

Nesse estado existia verdadeira liberdade da vontade. O ser humano possuía liberdade e poder para querer aquilo que era bom e agradável a Deus. Adão podia escolher entre o bem e o mal e possuía verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer.

Não havia ainda uma inclinação interna para o pecado. A corrupção não fazia parte da condição original do homem.

“E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Coma livremente de qualquer árvore do jardim’. Mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não coma, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá.” (Gênesis 2:16-17)

Nesse mandamento aparecem uma ordem, uma promessa e uma ameaça. A possibilidade de desobedecer era real. A desobediência não foi uma encenação nem uma escolha meramente aparente.

“Assim cheguei a esta conclusão: Deus fez os homens justos, mas eles foram em busca de muitas intrigas.” (Eclesiastes 7:29)

O texto é utilizado para mostrar que Deus não criou o homem corrompido. A corrupção aparece posteriormente como resultado da queda e da escolha humana.

Portanto, no estado de inocência havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A queda demonstra que essa condição ainda era mutável.

3. A queda e a perda da capacidade espiritual

Com a queda ocorre uma mudança fundamental na condição da vontade humana.

O homem continua escolhendo, decidindo, planejando, amando e odiando. Entretanto, a vontade passa a proceder de um coração corrompido. A liberdade de agência permanece, mas a capacidade espiritual para o bem é perdida.

A distinção fundamental apresentada é esta:
livre agência permanece; livre-arbítrio para o bem espiritual não permanece.

O homem continua sendo agente de suas decisões, mas suas escolhas procedem de uma natureza corrompida e de um coração escravizado pelo pecado.

4. A corrupção do coração humano

“O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal.” (Gênesis 6:5)

O problema apresentado não é simplesmente a prática de atos maus. O diagnóstico alcança a própria inclinação do coração.

A humanidade, depois da queda, possui uma inclinação corrompida. O problema está na própria vontade, nos afetos e nas motivações.

“Do céu o Senhor olha para os filhos dos homens para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus.”

“Todos se desviaram, igualmente se corromperam. Não há ninguém que faça o bem. Não há nem um sequer.”
(Salmo 14:2-3)

O texto é apresentado como demonstração da universalidade da corrupção humana. Essa mesma realidade é relacionada, na exposição, ao ensino de Romanos 3 acerca de todos terem pecado e estarem destituídos da glória de Deus.

“O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo?” (Jeremias 17:9)

O problema humano não é apenas comportamental. A corrupção alcança a vontade, os afetos e as motivações. O coração é apresentado como enganoso e incurável.

Assim, a condição natural do homem não pode ser descrita como uma neutralidade espiritual. A vontade continua ativa, mas está escravizada ao pecado.

5. Livre agência e escravidão ao pecado

A permanência da capacidade de escolher não significa que o homem possua capacidade espiritual autônoma para escolher Deus.

O homem continua escolhendo aquilo que deseja. Porém, aquilo que deseja procede de um coração corrompido.

“Cada um, porém, é tentado pelo seu próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido.” (Tiago 1:14)

O desejo humano participa diretamente de suas escolhas. O homem não é apresentado como um robô ou como alguém que age contra sua vontade. Ele age de acordo com aquilo que deseja. Entretanto, depois da queda, seus desejos são afetados pelo pecado.

“Respondeu Jesus: digo a verdade, todo aquele que vive pecando é escravo do pecado.” (João 8:34)

A vontade humana, portanto, continua ativa, mas existe escravidão ao pecado.

Essa escravidão explica por que a existência de escolhas humanas não implica liberdade espiritual para o bem.

6. A responsabilidade humana permanece

A escravidão da vontade ao pecado não transforma o homem em um agente involuntário.

O estudo afirma que o homem peca porque quer e permanece responsável porque realiza aquilo que deseja. Ao mesmo tempo, essa vontade é apresentada como escrava do pecado.

A soberania de Deus também não elimina a responsabilidade humana.

“O Senhor faz tudo para o seu devido propósito, até aos ímpios para o dia do castigo.” (Provérbios 16:4)

O ímpio possui livre agência e escolhe pecar, mas continua debaixo da soberania de Deus. Assim, o propósito divino permanece sendo cumprido.

7. A soberania de Deus sobre as ações humanas

A exposição apresenta situações nas quais a vontade humana e o propósito soberano de Deus aparecem simultaneamente.

A respeito de Pedro, Jesus declarou antecipadamente sua negação:

“Em verdade lhe digo que ainda hoje, ainda esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes, você me negará.” (Marcos 14:30)

Pedro realmente negou Jesus. A situação é utilizada para apresentar a relação entre a ação voluntária do homem e o conhecimento e propósito soberano de Deus.

O exemplo de José também é utilizado para mostrar que atos pecaminosos praticados por homens podem ser utilizados por Deus para cumprir seu propósito.

Portanto, a responsabilidade humana e o governo soberano de Deus não são apresentados como realidades incompatíveis.

8. A vontade soberana de Deus

“Nele fomos também feitos herdeiros, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade.” (Efésios 1:11)

O texto é utilizado para afirmar que Deus faz todas as coisas segundo o propósito de sua própria vontade. A vontade divina não está subordinada à vontade humana.

A soberania divina alcança o governo de todas as coisas e não depende da autonomia humana.

9. A incapacidade espiritual demonstrada em Israel

Israel é apresentado como povo escolhido soberanamente por Deus, mas incapaz de obedecer a Deus por sua própria capacidade.

“Pois vocês são um povo santo para o Senhor, o seu Deus. O Senhor, o seu Deus, os escolheu dentre todos os povos da face da terra para ser o seu povo, o seu tesouro pessoal.”

“O Senhor não se afeiçoou a vocês, nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos eles.”

“Foi porque o Senhor os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados, por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do faraó, rei do Egito.”
(Deuteronômio 7:6-8)

O ponto apresentado é que Israel não escolheu inicialmente tornar-se povo de Deus; Deus escolheu Israel.

“Somente nos seus antepassados o Senhor se afeiçoou e os amou e os escolheu vocês, seus descendentes dentre todas as nações, como hoje se vê, vocês foram escolhidos.” (Deuteronômio 10:15)

A escolha é apresentada como iniciativa de Deus.

10. A incapacidade de Israel diante dos privilégios espirituais

Israel recebeu grandes privilégios: o êxodo, o maná, a lei, os profetas e sinais extraordinários. Ainda assim, repetidamente demonstrou incapacidade espiritual para obedecer.

“Mas contudo, até hoje o Senhor não deu a vocês mente que entenda, olhos que vejam e ouvidos que ouçam.” (Deuteronômio 29:4)

O problema não é apresentado como simples ausência de informação. Mesmo diante de sinais e da revelação, havia incapacidade espiritual.

“Pode o etíope mudar a sua pele? Pode o leopardo mudar as suas manchas? Assim também vocês são incapazes de fazer o bem, vocês que estão acostumados a fazer o mal.” (Jeremias 13:23)

A incapacidade é comparada à impossibilidade de mudar aquilo que caracteriza naturalmente determinada condição. O texto é utilizado para demonstrar a incapacidade do homem pecador de produzir, por si mesmo, o bem espiritual.

11. O coração endurecido

“O Senhor, o Deus dos seus antepassados, advertiu-os vez após vez por meio dos seus mensageiros, pois tinha compaixão do seu povo e do lugar da sua habitação.”

“Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as palavras dele e expuseram ao ridículo os seus profetas, até que a ira do Senhor se levantou contra o seu povo e já não houve remédio.”
(2 Crônicas 36:15-16)

A rejeição da mensagem divina é relacionada à condição interna do coração. A exposição apresenta o problema como cegueira interior e dureza do coração.

12. O estado de graça: a vontade libertada

A condição do homem não termina na escravidão do pecado.

Quando Deus converte o pecador e o transfere para o estado de graça, ocorre libertação da escravidão natural ao pecado. Pela graça, a vontade é habilitada a querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom.

A graça não destrói a vontade humana. Pelo contrário, a vontade passa a ser verdadeiramente livre para o bem.

“Ele nos libertou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu filho amado.” (Colossenses 1:13)

A mudança de domínio é apresentada como libertação do domínio das trevas e transferência para o reino do Filho amado.

“Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar de acordo com a boa vontade dele.” (Filipenses 2:13)

A própria capacidade de querer e realizar aquilo que agrada a Deus é atribuída à ação de Deus.

Portanto, no estado de graça, a vontade não deixa de ser vontade. Ela é libertada pela graça e capacitada a desejar e realizar o bem espiritual.

13. A resposta voluntária produzida pela graça

“Teu povo se apresentará voluntariamente no teu, no dia do teu poder.” (Salmo 110:3)

A ordem apresentada é significativa: primeiro aparece o poder de Deus e depois a resposta voluntária do povo.

A voluntariedade não é apresentada como algo produzido pela autonomia humana contra a ação divina. O poder de Deus produz a disposição voluntária.

Assim, a graça não transforma o homem em alguém que age contra sua vontade. Ela transforma a própria disposição da vontade.

14. Um coração novo

“Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.” (Salmo 51:10-12)

A oração apresenta a necessidade de um coração novo e de um espírito disposto a obedecer.

A disposição para obedecer é apresentada como algo que vem de Deus.

“Estão chegando os dias, declara o Senhor, quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá, porei a minha lei no íntimo deles e escreverei nos seus corações.” (Jeremias 31:31-33)

A nova aliança é apresentada como obra de Deus no interior do homem. A lei é colocada no íntimo e escrita no coração.

“Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecer fielmente as minhas leis.” (Ezequiel 36:26-27)

O texto apresenta Deus como aquele que dá o novo coração, coloca o novo espírito e conduz à obediência.

Se o homem possuísse, por sua própria natureza, capacidade espiritual suficiente para obedecer, não haveria necessidade de um novo coração e de um novo espírito.

15. Moralidade natural e ausência de fé salvadora

A incapacidade espiritual não significa que o homem não convertido seja incapaz de apresentar comportamentos externamente bons.

A exposição apresenta o ensino de que os gentios, mesmo não tendo a lei escrita, podem fazer por natureza coisas que a lei exige (Romanos 2:14-15). A obra da lei é apresentada como escrita em seus corações, enquanto a consciência acusa ou defende.

Isso demonstra que pode existir moralidade externa e comportamento relativamente bom mesmo em pessoas não convertidas.

Entretanto, essa moralidade não é identificada com regeneração. Ela não produz fé salvadora nem verdadeiro amor a Deus.

“Então Deus lhe respondeu no sonho: ‘Sim, eu sei que você fez isso de coração puro. mesmo impedir que você pecasse contra mim. Por isso não permiti que você a tocasse.’” (Gênesis 20:6)

O exemplo de Abimeleque é utilizado para mostrar que Deus pode restringir o mal e que pode existir uma moralidade relativa em uma pessoa não regenerada. Isso, porém, não é apresentado como regeneração.

16. O estado de glória

O quarto estado é o estado de glória.

Nesse estado, a vontade humana será perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não haverá mais possibilidade de queda.

A vontade estará perfeitamente conformada à vontade de Deus.

“Sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.” (1 João 3:2)

O estado de glória é apresentado como o momento em que o crente será semelhante a Cristo.

Nesse estado não haverá mais a luta interna entre carne e espírito. A liberdade será completa, mas será liberdade somente para o bem.

A discussão sobre livre-arbítrio, nesse sentido, perderá sua relevância, porque não haverá mais possibilidade de queda. Haverá perfeita conformidade da vontade humana à vontade de Deus.

17. Os quatro estados da vontade

O ensino pode ser resumido da seguinte maneira:

1. Inocência — Adão antes da queda: Havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A vontade podia escolher entre o bem e o mal.
2. Pecado — homem depois da queda: A livre agência permanece, mas a vontade está escravizada ao pecado. O homem continua escolhendo, mas não possui capacidade espiritual autônoma para voltar-se para Deus e escolher o bem espiritual.
3. Graça — o regenerado: A vontade é libertada pela graça. O homem passa a ser capacitado a querer e realizar o bem espiritual, embora ainda exista luta contra o pecado.
4. Glória — o crente glorificado: A vontade é perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não existe mais possibilidade de queda.

Essa sequência é apresentada como o quadro bíblico central do estudo.

18. A soberania de Deus sobre os corações

A soberania de Deus não se limita às circunstâncias externas. A exposição também apresenta Deus como aquele que governa e dirige os corações.

“Eu, porém, porei, farei o coração do faraó resistir. Embora multiplique os meus sinais e prodígios no Egito.” (Êxodo 7:3)

Em Êxodo 9:12 o texto afirma que o Senhor endureceu o coração de Faraó. Ao mesmo tempo, em Êxodo 8:15 Faraó viu que houve alívio, mas endureceu o coração.

Assim aparecem conjuntamente a soberania divina e a responsabilidade humana: Deus endurece e Faraó endurece.

“O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor. Ele o dirige para onde quer.” (Provérbios 21:1)

O texto é utilizado para afirmar que Deus não simplesmente aguarda passivamente as decisões humanas. Ele inclina, dirige e move corações.

19. A soberania divina na salvação

A exposição apresenta a salvação como resultado da graça soberana de Deus.

Israel foi escolhido. Abraão foi chamado. O homem natural é apresentado como incapaz de voltar-se para Deus por si mesmo. O novo coração é dado por Deus. A vontade é libertada pela graça.

Por isso, a conclusão apresentada é que o homem não é autor de sua própria salvação, mas objeto da graça soberana de Deus.

Negar a capacidade autônoma do homem para o bem espiritual não é diminuir o homem. É colocar o homem em seu devido lugar e reconhecer Deus como soberano.

Conclusão

O estudo do livre-arbítrio precisa distinguir os quatro estados da vontade humana.

No estado de inocência, havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A queda trouxe corrupção e escravidão ao pecado, embora a capacidade de escolher e agir tenha permanecido.

No estado de pecado, o homem continua sendo agente de suas escolhas, mas sua vontade não é espiritualmente neutra. Seus desejos procedem de um coração corrompido.

No estado de graça, Deus liberta a vontade da escravidão natural ao pecado e a capacita a querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom. Essa vontade continua sendo voluntária, mas sua libertação é obra da graça.

No estado de glória, a vontade será perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não haverá mais possibilidade de queda nem conflito entre a vontade humana e a vontade de Deus.

Assim, soberania divina e responsabilidade humana aparecem juntas. Deus governa todas as coisas e dirige os corações, enquanto o homem continua responsável por suas próprias escolhas.

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