A compreensão do livre-arbítrio exige que a vontade humana seja considerada dentro dos diferentes estados em que o ser humano se encontra. A vontade não deve ser tratada como se toda a história bíblica apresentasse uma única condição humana.
O estudo apresenta quatro estados da vontade:
• Estado de inocência — Adão e Eva antes da queda.
• Estado de pecado — toda a humanidade em Adão depois da queda.
• Estado de graça — os regenerados em Cristo nesta vida.
• Estado de glória — os crentes perfeitos na presença de Deus.
Essa distinção impede que se misture a condição de Adão antes da queda com a condição do homem depois do pecado ou com a condição do crente regenerado.
O propósito é compreender a soberania de Deus, rejeitar a ideia de autonomia humana e, ao mesmo tempo, reconhecer a responsabilidade humana.
A soberania de Deus é apresentada como realidade que governa toda a existência humana. O homem não é apresentado como autônomo, inclusive no que diz respeito à sua salvação.
O Salmo 139:16 é apresentado como texto inicial:
Esse texto é utilizado para destacar que os dias do ser humano estavam determinados e escritos por Deus antes de existirem.
A soberania divina, porém, não elimina a responsabilidade humana. O estudo mantém essas duas verdades juntas: Deus é soberano e o homem continua responsável por suas ações.
O primeiro estado é o estado de inocência. Trata-se da condição de Adão e Eva antes da queda.
Nesse estado existia verdadeira liberdade da vontade. O ser humano possuía liberdade e poder para querer aquilo que era bom e agradável a Deus. Adão podia escolher entre o bem e o mal e possuía verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer.
Não havia ainda uma inclinação interna para o pecado. A corrupção não fazia parte da condição original do homem.
Nesse mandamento aparecem uma ordem, uma promessa e uma ameaça. A possibilidade de desobedecer era real. A desobediência não foi uma encenação nem uma escolha meramente aparente.
O texto é utilizado para mostrar que Deus não criou o homem corrompido. A corrupção aparece posteriormente como resultado da queda e da escolha humana.
Portanto, no estado de inocência havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A queda demonstra que essa condição ainda era mutável.
Com a queda ocorre uma mudança fundamental na condição da vontade humana.
O homem continua escolhendo, decidindo, planejando, amando e odiando. Entretanto, a vontade passa a proceder de um coração corrompido. A liberdade de agência permanece, mas a capacidade espiritual para o bem é perdida.
A distinção fundamental apresentada é esta:
livre agência permanece; livre-arbítrio para o bem espiritual não permanece.
O homem continua sendo agente de suas decisões, mas suas escolhas procedem de uma natureza corrompida e de um coração escravizado pelo pecado.
O problema apresentado não é simplesmente a prática de atos maus. O diagnóstico alcança a própria inclinação do coração.
A humanidade, depois da queda, possui uma inclinação corrompida. O problema está na própria vontade, nos afetos e nas motivações.
O texto é apresentado como demonstração da universalidade da corrupção humana. Essa mesma realidade é relacionada, na exposição, ao ensino de Romanos 3 acerca de todos terem pecado e estarem destituídos da glória de Deus.
O problema humano não é apenas comportamental. A corrupção alcança a vontade, os afetos e as motivações. O coração é apresentado como enganoso e incurável.
Assim, a condição natural do homem não pode ser descrita como uma neutralidade espiritual. A vontade continua ativa, mas está escravizada ao pecado.
A permanência da capacidade de escolher não significa que o homem possua capacidade espiritual autônoma para escolher Deus.
O homem continua escolhendo aquilo que deseja. Porém, aquilo que deseja procede de um coração corrompido.
O desejo humano participa diretamente de suas escolhas. O homem não é apresentado como um robô ou como alguém que age contra sua vontade. Ele age de acordo com aquilo que deseja. Entretanto, depois da queda, seus desejos são afetados pelo pecado.
A vontade humana, portanto, continua ativa, mas existe escravidão ao pecado.
Essa escravidão explica por que a existência de escolhas humanas não implica liberdade espiritual para o bem.
A escravidão da vontade ao pecado não transforma o homem em um agente involuntário.
O estudo afirma que o homem peca porque quer e permanece responsável porque realiza aquilo que deseja. Ao mesmo tempo, essa vontade é apresentada como escrava do pecado.
A soberania de Deus também não elimina a responsabilidade humana.
O ímpio possui livre agência e escolhe pecar, mas continua debaixo da soberania de Deus. Assim, o propósito divino permanece sendo cumprido.
A exposição apresenta situações nas quais a vontade humana e o propósito soberano de Deus aparecem simultaneamente.
A respeito de Pedro, Jesus declarou antecipadamente sua negação:
Pedro realmente negou Jesus. A situação é utilizada para apresentar a relação entre a ação voluntária do homem e o conhecimento e propósito soberano de Deus.
O exemplo de José também é utilizado para mostrar que atos pecaminosos praticados por homens podem ser utilizados por Deus para cumprir seu propósito.
Portanto, a responsabilidade humana e o governo soberano de Deus não são apresentados como realidades incompatíveis.
O texto é utilizado para afirmar que Deus faz todas as coisas segundo o propósito de sua própria vontade. A vontade divina não está subordinada à vontade humana.
A soberania divina alcança o governo de todas as coisas e não depende da autonomia humana.
Israel é apresentado como povo escolhido soberanamente por Deus, mas incapaz de obedecer a Deus por sua própria capacidade.
O ponto apresentado é que Israel não escolheu inicialmente tornar-se povo de Deus; Deus escolheu Israel.
A escolha é apresentada como iniciativa de Deus.
Israel recebeu grandes privilégios: o êxodo, o maná, a lei, os profetas e sinais extraordinários. Ainda assim, repetidamente demonstrou incapacidade espiritual para obedecer.
O problema não é apresentado como simples ausência de informação. Mesmo diante de sinais e da revelação, havia incapacidade espiritual.
A incapacidade é comparada à impossibilidade de mudar aquilo que caracteriza naturalmente determinada condição. O texto é utilizado para demonstrar a incapacidade do homem pecador de produzir, por si mesmo, o bem espiritual.
A rejeição da mensagem divina é relacionada à condição interna do coração. A exposição apresenta o problema como cegueira interior e dureza do coração.
A condição do homem não termina na escravidão do pecado.
Quando Deus converte o pecador e o transfere para o estado de graça, ocorre libertação da escravidão natural ao pecado. Pela graça, a vontade é habilitada a querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom.
A graça não destrói a vontade humana. Pelo contrário, a vontade passa a ser verdadeiramente livre para o bem.
A mudança de domínio é apresentada como libertação do domínio das trevas e transferência para o reino do Filho amado.
A própria capacidade de querer e realizar aquilo que agrada a Deus é atribuída à ação de Deus.
Portanto, no estado de graça, a vontade não deixa de ser vontade. Ela é libertada pela graça e capacitada a desejar e realizar o bem espiritual.
A ordem apresentada é significativa: primeiro aparece o poder de Deus e depois a resposta voluntária do povo.
A voluntariedade não é apresentada como algo produzido pela autonomia humana contra a ação divina. O poder de Deus produz a disposição voluntária.
Assim, a graça não transforma o homem em alguém que age contra sua vontade. Ela transforma a própria disposição da vontade.
A oração apresenta a necessidade de um coração novo e de um espírito disposto a obedecer.
A disposição para obedecer é apresentada como algo que vem de Deus.
A nova aliança é apresentada como obra de Deus no interior do homem. A lei é colocada no íntimo e escrita no coração.
O texto apresenta Deus como aquele que dá o novo coração, coloca o novo espírito e conduz à obediência.
Se o homem possuísse, por sua própria natureza, capacidade espiritual suficiente para obedecer, não haveria necessidade de um novo coração e de um novo espírito.
A incapacidade espiritual não significa que o homem não convertido seja incapaz de apresentar comportamentos externamente bons.
A exposição apresenta o ensino de que os gentios, mesmo não tendo a lei escrita, podem fazer por natureza coisas que a lei exige (Romanos 2:14-15). A obra da lei é apresentada como escrita em seus corações, enquanto a consciência acusa ou defende.
Isso demonstra que pode existir moralidade externa e comportamento relativamente bom mesmo em pessoas não convertidas.
Entretanto, essa moralidade não é identificada com regeneração. Ela não produz fé salvadora nem verdadeiro amor a Deus.
O exemplo de Abimeleque é utilizado para mostrar que Deus pode restringir o mal e que pode existir uma moralidade relativa em uma pessoa não regenerada. Isso, porém, não é apresentado como regeneração.
O quarto estado é o estado de glória.
Nesse estado, a vontade humana será perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não haverá mais possibilidade de queda.
A vontade estará perfeitamente conformada à vontade de Deus.
O estado de glória é apresentado como o momento em que o crente será semelhante a Cristo.
Nesse estado não haverá mais a luta interna entre carne e espírito. A liberdade será completa, mas será liberdade somente para o bem.
A discussão sobre livre-arbítrio, nesse sentido, perderá sua relevância, porque não haverá mais possibilidade de queda. Haverá perfeita conformidade da vontade humana à vontade de Deus.
O ensino pode ser resumido da seguinte maneira:
1. Inocência — Adão antes da queda: Havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A vontade podia escolher entre o bem e o mal.
2. Pecado — homem depois da queda: A livre agência permanece, mas a vontade está escravizada ao pecado. O homem continua escolhendo, mas não possui capacidade espiritual autônoma para voltar-se para Deus e escolher o bem espiritual.
3. Graça — o regenerado: A vontade é libertada pela graça. O homem passa a ser capacitado a querer e realizar o bem espiritual, embora ainda exista luta contra o pecado.
4. Glória — o crente glorificado: A vontade é perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não existe mais possibilidade de queda.
Essa sequência é apresentada como o quadro bíblico central do estudo.
A soberania de Deus não se limita às circunstâncias externas. A exposição também apresenta Deus como aquele que governa e dirige os corações.
Em Êxodo 9:12 o texto afirma que o Senhor endureceu o coração de Faraó. Ao mesmo tempo, em Êxodo 8:15 Faraó viu que houve alívio, mas endureceu o coração.
Assim aparecem conjuntamente a soberania divina e a responsabilidade humana: Deus endurece e Faraó endurece.
O texto é utilizado para afirmar que Deus não simplesmente aguarda passivamente as decisões humanas. Ele inclina, dirige e move corações.
A exposição apresenta a salvação como resultado da graça soberana de Deus.
Israel foi escolhido. Abraão foi chamado. O homem natural é apresentado como incapaz de voltar-se para Deus por si mesmo. O novo coração é dado por Deus. A vontade é libertada pela graça.
Por isso, a conclusão apresentada é que o homem não é autor de sua própria salvação, mas objeto da graça soberana de Deus.
Negar a capacidade autônoma do homem para o bem espiritual não é diminuir o homem. É colocar o homem em seu devido lugar e reconhecer Deus como soberano.
O estudo do livre-arbítrio precisa distinguir os quatro estados da vontade humana.
No estado de inocência, havia verdadeira capacidade de obedecer e desobedecer. A queda trouxe corrupção e escravidão ao pecado, embora a capacidade de escolher e agir tenha permanecido.
No estado de pecado, o homem continua sendo agente de suas escolhas, mas sua vontade não é espiritualmente neutra. Seus desejos procedem de um coração corrompido.
No estado de graça, Deus liberta a vontade da escravidão natural ao pecado e a capacita a querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom. Essa vontade continua sendo voluntária, mas sua libertação é obra da graça.
No estado de glória, a vontade será perfeita e imutavelmente livre para o bem. Não haverá mais possibilidade de queda nem conflito entre a vontade humana e a vontade de Deus.
Assim, soberania divina e responsabilidade humana aparecem juntas. Deus governa todas as coisas e dirige os corações, enquanto o homem continua responsável por suas próprias escolhas.