Uma visão de mundo nascida do movimento iluminista e seu impacto na fé e na razão.
A influência do Iluminismo e do Modernismo no pensamento moderno.
O Iluminismo e o modernismo — que abrangeram o período revolucionário e turbulento do final do século XVII ao início do século XIX na Europa e na América — representaram uma mudança filosófica, intelectual e religiosa em relação à compreensão cristã histórica da fé e da razão. Embora alguns pensadores tenham sustentado que o Iluminismo e o modernismo foram dois movimentos distintos, talvez seja mais preciso identificar o modernismo como uma visão de mundo nascida do movimento iluminista, embora os dois termos possam ser usados como sinônimos. Os defensores dos ideais iluministas e modernistas contrapuseram a ciência à religião e argumentaram em favor da primazia da razão humana, da inevitabilidade do progresso humano e da separação entre Igreja e Estado. Eles buscavam a libertação daquilo que consideravam os adornos da ética social tradicional, da arte, da música, do conhecimento e da fé, defendendo uma visão de mundo que concebia todas as coisas existindo e prosperando independentemente de Deus e de Sua revelação especial na Bíblia. O homem, e não Deus, era considerado a medida de todas as coisas.
O Iluminismo (período por vezes referido como a “Era da Razão”) produziu diversos pensadores que consideravam a razão humana, sem o auxílio de revelações divinas especiais, como a autoridade máxima para responder às questões mais significativas da vida e o guia mais seguro para o aprimoramento da sociedade humana. O conhecimento da verdade não proviria de Deus, de Suas obras de criação ou providência, nem de Suas revelações especiais, mas sim por meio do uso da razão e de metodologias naturalistas. Um dos pensadores mais importantes do Iluminismo, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), incentivou as pessoas a pensarem de maneira totalmente independente das tradições anteriores. Outros ideais-chave do Iluminismo foram desenvolvidos nos ensaios de John Locke (1632-1704).
Apesar da influência de pensadores individuais como Kant e Locke, o questionamento racional da autoridade tradicional, da fé e do conhecimento não encontrou uma voz unificada e monolítica. Em vez disso, o Iluminismo produziu diferentes ênfases dependendo do ano, do local e das circunstâncias específicas. Talvez seja mais apropriado falar em Iluminismo Francês ou Iluminismo Inglês, já que o movimento nos diversos países seria marcado por momentos decisivos em suas respectivas histórias. Tanto a Revolução Americana quanto a Revolução Francesa do final do século XVIII, por exemplo, foram impulsionadas pelos ideais iluministas e modernistas, mas cada revolução tomou um rumo diferente, com a Revolução Americana assumindo um caráter muito mais teísta do que a Revolução Francesa.
As obras de Thomas Paine (1737–1809), “Senso Comum”, “Os Direitos do Homem” e “A Era da Razão”, e a Declaração de Independência de Thomas Jefferson (1743–1826) são representações notáveis dos ideais do Iluminismo. Benjamin Franklin (1706–90) defendeu as ideias do Iluminismo, especialmente as da liberdade individual, da tolerância religiosa e do livre-arbítrio do homem. O filósofo francês Voltaire (1694–1778) foi um defensor declarado do Iluminismo e do pensamento modernista. Em seu Dicionário Filosófico (1764), ele criticou as instituições histórico-tradicionais e a religião, buscando desmistificar o universo e expurgar as crenças sobrenaturais que obscureciam o verdadeiro conhecimento e a compreensão. Essas articulações encontrariam posteriormente um sistema de pensamento naturalista desenvolvido na obra de Charles Darwin, A Origem das Espécies (1859). A obra histórica Encyclopédie, em trinta e cinco volumes, compilada por Denis Diderot (1713-84), contribuiu de forma singular para impulsionar o pensamento iluminista na Europa e na América.
Embora os pensadores do Iluminismo questionassem as crenças tradicionais, muitos deles não queriam abandonar completamente a crença em Deus. Assim, novas alternativas sincréticas foram propostas, tornando a crença em um certo tipo de divindade compatível com o pensamento iluminista. Entre essas alternativas, destacaram-se o deísmo e (posteriormente) o liberalismo teológico. O deísmo via Deus como um “relojoeiro” divino que dava corda à criação — juntamente com todas as leis da natureza — apenas para deixá-la seguir seu próprio curso, enquanto Ele permanecia desconectado dos eventos da vida cotidiana. Como uma teologia racionalista, o deísmo rejeitava a Bíblia como fonte de revelação divina especial e enfatizava que todo o conhecimento de Deus provém unicamente do racionalismo e da observação do mundo natural. A revisão da Bíblia feita por Thomas Jefferson (1820), por exemplo, removeu referências ao sobrenatural, ao milagroso e à divindade de Jesus.
O liberalismo teológico, com raízes no Iluminismo alemão, também buscou "desmitologizar" a Bíblia e atenuar seu sobrenaturalismo explícito. Teólogos liberais como Friedrich Schleiermacher (1768-1834) e Albrecht Ritschl (1822-1889) questionaram a autenticidade de certos textos bíblicos e enfatizaram a ética em detrimento das verdades doutrinárias, vendo Jesus meramente como um modelo de caráter cristão e não como o Salvador que deu a sua vida em expiação vicária para redimir os pecadores. Outros grupos se afastaram ainda mais do cristianismo histórico e ortodoxo.
No fim, o Iluminismo e o Modernismo sofreram com sua ênfase excessiva na razão auto-realizada. As pessoas se cansaram de uma compreensão tão limitada do mundo e se voltaram para a vida emocional. Isso resultaria no Romantismo do século XIX.